
fazia tempo que eu não postava um conto... então...
Cachaça
— Manda uma branca homem!
— Da qual?
— ... daquela!
O bar solitário delatava a minha exclusão de tudo o que era certo. A hora era de sofreguidão anônima em balcões e escritórios. Grandes heróis padeciam agonias indecifráveis naquela hora, e eu ali, na mesa empoeirada do bar do Benedito, um digno representante dos afro-brasileiros, de barba mal feita e camiseta encardida, com um furo do lado do imenso umbigo.
Qual a hora? Duas da tarde? Quatro? É indiferente. É indiferente pra quem está excluído do ritmo frenético das horas. Há tantos vagabundos disfarçados: apostadores, corretores de sonhos e mentirosos de todos os tipos, de políticos a santos homens. Porém, estes não são excluídos como eu, um vagabundo confesso aqui, no bar do Benedito, que trouxe solene até à mesa uma branca e ardente água maldita, bendita entre as águas: o Benedito vende benditas águas brancas... e amarelas também.
Deitou-a sobre a mesa. Um pedaço de ilusão. Ainda deixou cair uma gota pela borda do copo, daqueles de fundo alto e estreito, só pra me dar vontade de lamber a mesa, se não fosse a poeira, é claro, e as marcas de tantos desatinos que já foram ali vomitados.
Cheirei seu perfume de longe e um tremor me percorreu dos pés à cabeça. Cheguei perto, mas sem tocá-la, como se a sua limpidez fosse um atestado de pureza. A vi como uma virgem tomada de pudores ao meu olhar nefasto, mas uma virgem farta de sua própria pureza, e que não corou quando eu cheguei mais perto e respirei o perfume doce do seu ombro, ou quando escorreguei meu nariz na sua pele. Ah! Ela não corou, tampouco empalideceu. E quando minha língua, mais ardente que sua alma, tocou de leve seu lábio, mil demônios saltaram do seu seio. Ainda ouvi seu gemido de prazer, e senti suas mãos me agarrarem pelos cabelos. Passou suas pernas ao redor do meu rosto e esfregou-se em minha boca, morna, molhada...
Qual mortal resistiria? Traguei-a como devia...
— Ô Benedito! Manda mais uma dessas...
— E o bolso, dá pra pagar?
— Que foi homem? Alguma vez não paguei conta de cachaça?
Tive a impressão que sentia o cheiro do pano que o Benedito carregava nos ombros. Acho que o mesmo desde que abriu o bar faz alguns anos, e sem lavar.
Chegaram o Amarildo e o Barbosa, dois bêbados de classe. Tipos de bêbados perigosos. Beberam rápido uma amarelinha cada um. O Barbosa torceu o nariz e fechou o olho direito, se apoiando no balcão:
— Aaaannnnhhh!
Enquanto o Amarildo lambia o beiço com uma assustadora serenidade: mão no bolso e nariz altivo. Ficaram olhando seus copos vazios por alguns segundos e dava pra ver o turbilhão que se agitava em suas almas. Olharam-se com uma cumplicidade que dava vontade de chamar a polícia. Fiquei na torcida. Se tivesse alguém comigo apostaria dez mangos que eles pediam mais uma. Foi um momento mágico. Era como se tudo tivesse ficado extático, esperando a decisão: pararam os carros da rua e os pedestres se voltaram para o bar. Porra! Será que o Benedito topa apostar? Mas daí o Barbosa sorriu e bateu nas costas do Amarildo. Covardes! Saíram abraçados como dois irmãos. Nem se importaram com a grande decepção que causaram, não apenas em mim, mas em todos, e no Benedito, principalmente.
Olhei para minha mesa e fiquei enojado: o Benedito virou mais um pouco pra fora do copo. Caralho! Uma roda de cachaça na mesa, da mais pura e digna cachaça de toda cidade, vinda lá do sul de minas, de Luis Alves e de Santo Amaro da Imperatriz (que belo santo!... ou essa imperatriz gostava de um pileque). Nisso o negão, ou melhor, meu querido grande descendente afro-brasileiro, caprichava. Podia não lavar o pano de prato do ombro, mas a cana era de cachaceiro especializado, com mestrado e doutorado na arte de criar bêbados.
Eu ainda tava com medo do que a branca tinha feito comigo no primeiro copo. Quase tive um orgasmo ali mesmo, na mesa do bar, por isso, pra não dar vexame com uma ereção em lugar público, bebi rápido, num gole só.
— Tá muito ligeiro homem! Pra que a pressa? Ainda nem é...
— Não me fale a hora, seu metido! Quem manda na minha vida sou eu! Gritei, me levantando e quase pulando por cima do balcão.
— E quem vende a cachaça aqui sou eu! — falou o Benedito, com sua calma de trinta anos de barriga calejada por balcões do Brasil inteiro.
Confesso que falou tão manso que não pude contestar. Ele tinha a maior das razões que eu podia imaginar naquele momento. Como são superiores as pessoas montadas em fortes argumentos! Só me restou sentar e ficar admirando sua taciturna calma. Era de ficar abismado. Ele falou aquela sentença perfeita sem me olhar, continuou enxugando os copos com o seu maravilhoso pano de prato, sem esboçar qualquer reação que traísse algum espanto: o beiço molhado, a mosca no ombro, a caneta na orelha, o olhar distraído, o furo na camiseta... o imenso umbigo...
Sentei-me novamente, ainda contemplando sua majestade, o Benedito, senhor de todos os destinos itinerantes que por aquela porta entravam. Respirei fundo e, pra demonstrar minha submissão à sua incorruptível autoridade, falei, calmamente:
— Manda mais uma...branca.
Antes que ele se movesse pra pegar a garrafa, Leonora entrou. Ah! Leonora, a filha do Benedito. Quantos anos? 18, 19... sei lá! Pra que saber? Pra soprar longe a paixão, que por si só já tem como destino espalhar-se no vento?
Olhei-me e tive vergonha: uma camiseta azul desbotada mais de um lado que do outro, solta por cima da calça pra esconder o furo no lado do bolso, cabelos desgrenhados, dentes amarelos e um, bem da frente, com o canto quebrado; unhas roídas; alma ruída... e a idade? Porra! Se não sei a idade dela, pra que ela quer saber a minha? Não conto!
Ela passou na minha frente como se eu fosse apenas um monte de ar que bebia cachaça. Encostou no balcão e empinou em minha direção a sua bunda coberta por uma mini-saia branca. Ficou na ponta do pé pra alcançar uma caneta e um papel do outro lado do balcão alto. Ai! Mais um pouco... só mais um pouco... só mais um pouco... Quando ela alcançou a caneta eu havia conseguido deitar na cadeira, de tanto que escorreguei. Quase quebrei o pescoço.
— Amarela! — Falei alto e no impulso, me arrumando na cadeira.
Ela voltou-se rapidamente, baixando a beira da saia, mas eu completei, de imediato, percebendo a rápida transformação no olhar do meigo Benedito:
— Uma amarela, Benedito... agora manda uma A M A R E L A!
Caramba! Eu não gosto de amarela!
A mulata Leonora ficou me olhando por segundos, como se eu houvesse cometido um grave crime olhando a ponta mais proeminente da sua calcinha. Seus cabelos cacheadinhos caiam até o ombro e os olhos verdes lentes de contato faiscavam no meio da tarde dolente. Eu não sabia o que dizer, fiquei petrificado, enquanto esperava que ela me executasse. Depois de um rápido impasse, olhei pra ela e dei de ombros, apontando o copo vazio de cachaça sobre a mesa:
— Uma amarelinha, só pra variar. Você gosta?
— Hammm... Hamm... — rosnou o Benedito, como um cão bravo em cima de um pedaço de carne, quando alguém quer lhe roubar um naco. Ele não permitia gracinha com a Leonora, de nenhum tipo. Botava pra fora do bar mesmo, e isso era muito grave.
— Cadê a amarela o Benê?
Ele bateu com o copo na mesa e espirrou mais um pouco de cachaça.
— Pô! — reclamei, mas sem muita capacidade de argumentação.
Cochichou alguma coisa no ouvido da linda mulatinha, ou melhor, pequena descendente afro-brasileira, que me olhou mais uma vez com um poder de desdenhar que quase me fez desaparecer na cadeira. Saiu rebolando seu corpo preciso pelo meu lado e eu demorei alguns segundos pra perceber a carranca do Benedito.
— Cadê a amarelinha homem?
— Tá na tua frente...
— Ah! É verdade... então manda outra, branca, que essa não é tão boa.
Ele trouxe até a mesa mais uma branca, mas, antes dele tirar a amarela, relutei e segurei a mão que ia levá-la, assim, desamparada, rejeitada. Não! Eu não podia fazer isso:
— Deixa ela... (seu bruto!)
Fiquei olhando pras duas. A cachaça que o Benedito derrubou na mesa fazia um círculo no tampo de fórmica. Coloquei as duas dentro do círculo e me senti um feiticeiro começando a preparar uma poção mágica. Tive a impressão que, rapidamente, espíritos antigos me rodearam e sopraram no meu ouvido velhos segredos, e um arrepio percorreu antes minha alma, depois o corpo. Os dois copos ali, no meio da roda, um claro como a água, o outro amarelo ardente como o fogo. Uma hipnose me roubou do mundo, caíram as paredes e as formas, e viajei no ar sem limites e sem tempo. Meu peito se enchia de uma emoção desconhecida. Viajava num céu muito azul e me aproximava de uma alta montanha, rápido, como uma águia. Fui chegando, bem no topo. O ar era fresco e havia um perfume de jasmim que me invadia.
Passei o topo e caí num vácuo. Fui descendo em queda livre e a escuridão tomou conta de tudo, assim como o frio que me fez tremer e me encolher enquanto caía. Vi o chão chegando rápido e, quando pensei que ia me arrebentar, perdi os sentidos. Não sei a medida do tempo que fiquei sem saber das coisas, mas as coisas foram voltando, aos poucos, aos meus sentidos. Coisas escuras e disformes. O coração parecia bater mil vezes por minuto. Lembrei da última visita do médico no meu quarto, numa das tentativas da família de reverter o quadro, quando ele falou do meu coração que era fraco.
No meio do embaçado vi que alguém se aproximava e fiquei apreensivo. Vinha andando com dificuldade e com a cabeça baixa. Usava uns trapos cobrindo o corpo e pude sentir um cheiro forte de álcool quando chegou perto. Tinha os cabelos desgrenhados e compridos, que não me deixavam ver quem era. Quando ergueu a cabeça, meu peito quase explodiu de dor e medo. Dei um grito e pulei para trás na cadeira:
— Pai!
Só estava o Benedito no bar e ele continuou enxugando os copos sem qualquer reação. Depois de alguns segundos, sem me olhar, falou:
— Começou cedo hoje!
Na minha frente os dois copos vazios, no meio da poça de cachaça da mesa. Eu não lembrava de ter bebido. Quantas já havia tomado? Com as duas, quatro. Muito pouco pra começar os delírios. Estava sentindo um pouco de ânsia e as coisas pareciam se mexer. Coloquei a cabeça entre as mãos e tentei reconstituir o que havia acontecido. Meu pai! Novamente, e péssimo, como sempre. Eu sabia o que era aquilo: era minha mãe! Rezava tanto que começou acontecer isso. Depois que meu pai morreu de porre, não saía mais da igreja.
Meu pai! Será que ele estava assim? Foram anos e anos de bebedeira. O mesmo caminho que eu fazia agora. Olhei para o Benedito esperando encontrar algum consolo para meu desespero, mas aquela alma era impassível a dores alcoólicas. Somente depois de um bom tempo ele falou, mas sem me olhar:
— Você devia parar...
— ... é... você tem razão... vou parar de pensar nisso, senão fico maluco... manda mais uma antes que seja tarde...
— Essa já é a décima...
O reticencioso Benedito. Sempre que falava, ficavam as reticências. Como assim a décima? Só pode estar ficando maluco!
Ele chegou a levantar os olhos, relutou alguns intermináveis instantes, mas depois veio com a garrafa. Era o segundo estágio, ele não trocaria mais os copos. Mesmo assim derrubou um pouco na hora de servir, mas eu estava distante e não me incomodei muito, a não ser na hora que levantei o copo e vi que o movimento fazia ondinhas na roda de cachaça sobre a mesa. Repeti o mesmo gesto várias vezes, muitas vezes, e em cada onda eu navegava cada vez mais longe no tempo: o lago na fazenda, a poça d’água embaixo da calha quando chovia, os barquinhos de papel, os intermináveis barquinhos de papel da minha infância... meu pai fazia os mais lindos barquinhos...
— Porra! Falei que ia parar de pensar nisso.
Um casal de namorados tinha entrado no bar pra comprar cigarros e a moça me olhava sorrindo, como se eu fosse apenas mais um bêbado idiota. Eu não conseguia parar de levantar e abaixar o copo pra fazer ondinhas, por isso não podia deixar de dar razão para ela. Como se nada estivesse acontecendo, numa das vezes que levantei o copo, passei direto do ponto de parada e joguei a branca pra dentro, num gole só. Foi como uma manta de lã me cobrindo do inverno do tempo que ficou pra trás e me roubando para o calor do presente. Retribuí o sorriso da moça, mas o cara me encarou estranho e eu despistei. Ele continuou me encarando. Quando percebi o que tinha feito o Benê já estava virando a quina do balcão com a garrafa na mão. Eu tinha pedido outra!
— Hoje você tá mais rápido, ainda é...
— Pô! Eu já disse que não quero saber que horas são! Bota mais uma aí... qualé! Alguma vez eu já saí desta... desta... casa... sem pagar a conta. Bota aí homem!
Quando terminei de brigar com o Benedito o casal já tinha saído. Fui pegar o copo e fiquei assustado com a imensa poça de cachaça que estava na mesa. Perfeitamente circular. O Benedito ameaçou secar com o pano, mas eu, com uma rapidez e agilidade própria de um herói, segurei seu braço. Não podia conceber aquele líquido que exigiu o suor de tantos trabalhadores ser assim devorado por aquele imundo pano. Não precisei explicar nada, ele entendeu a atrocidade que quase cometeu.
A cachaça derramada parecia um pequeno lago, construído bem no meio da mesa e refletia a lâmpada que ficava sobre a porta de entrada do bar, como se fosse um farol me conduzindo, o náufrago de mim mesmo, para longe dos perigos do dia a dia. Minha visão ficou embaralhada com a lâmpada virando farol e pude sentir uma brisa de mar roçando meu rosto quente. Respirei fundo e virei o leme pra passar ao largo do farol, rumo mar adentro. O cheiro fresco de mar coberto por uma bruma fina me enchia o peito. Do meio da bruma começou a cair uma garoa fina, que logo se transformou em chuva e eriçou o mar. A brisa virou vento, frio e cortante. Meu barco chacoalhava me dando enjôo e eu procurava algum lugar onde me firmar, mas só encontrava cordas soltas. Num balanço mais longo não resisti e vomitei. Em instantes a calmaria virou desespero e vi meu barco se aproximando de uma imensa rocha, onde foi explodir em centenas de pedaços. Caí no vazio e logo lembrei que nunca tinha aprendido a nadar. Fui direto ao fundo e, como um louco, tentava respirar, mas só engolia mais e mais água. Se ainda fosse cachaça!
Tudo ficou escuro e, no exato momento da maior agonia, respirei com toda minha força. Lembro que ainda engoli um gole de água antes de levantar a cabeça e perceber que estava na frente da minha casa, caído na calçada e com a cara pra baixo no meio fio. Havia dado uma daquelas chuvas de verão e a enxurrada ainda estava forte.
Cadê o Benedito! Como é que ele conseguiu ir embora e levar o bar junto?
O Benedito tinha razão, eu precisava parar. Sentado no meio fio e sendo julgado por olhares reclusos atrás de venezianas, senti-me ridículo. Jurei que nunca esqueceria aquela noite, caído na sarjeta, bebendo água da enxurrada. Era o fundo do poço. A roupa toda encharcada, o corpo também, a alma ainda mais. Não dava mais! Decididamente, não dava mais. Precisava parar. Já era noite. Eu devia parar. Sabia o quanto ia ser difícil. Será que eu tomei a cachaça derramada da mesa? É, eu devia parar, mais uma vez, eu devia parar. Seria a última, seria pra valer, e seria difícil, uma batalha diária e desgastante.
Num esforço sobre humano reformulei minha vida, desde os mínimos detalhes. Precisava reconquistar o respeito da família, dos amigos, dos olhos atrás das venezianas. Então recuperei o emprego, mesmo que num cargo inferior, mas não podia reclamar. Não era fácil. Nunca mais bebida!
Pra incentivar ainda mais minha decisão, o destino fez meu caminho cruzar com o da Leonora. Inacreditável! Casamos, com o Barbosa e o Amarildo de padrinhos e tivemos dois pequenos descendentes afro-brasileiros, bem mulatinhos. O próprio Benedito, na sua sapiência, abençoou o casamento. Nunca mais cachaça! Não era fácil, não era nada fácil. Era melhor ir na missa todo domingo para minha mãe parar de rezar tanto. Só água, só refrigerante e, acreditem, leite, muito leite. Realmente, não era fácil. Porém, eu não tinha mais escolha. Era o único futuro que eu poderia ter. Superei a mim mesmo num terreno onde as derrotas eram mais comuns que as vitórias. Venci-me, e, para comemorar a vitória, e para provar pra eu mesmo e pra todo mundo que o meu futuro não era fácil, no outro dia... é, no dia seguinte mesmo. No dia seguinte da noite que acordei na sarjeta bebendo água da chuva, entrei no bar do Benedito, com ares de vitorioso, lá pelas três da tarde, como sempre, e logo gritei pra ele:
— Manda aí, Benê, uma branca, que você não tem idéia o quanto vai ser difícil o futuro que vou enfrentar de amanhã em diante! Só com uma branca pra conseguir!
— Manda uma branca homem!
— Da qual?
— ... daquela!
O bar solitário delatava a minha exclusão de tudo o que era certo. A hora era de sofreguidão anônima em balcões e escritórios. Grandes heróis padeciam agonias indecifráveis naquela hora, e eu ali, na mesa empoeirada do bar do Benedito, um digno representante dos afro-brasileiros, de barba mal feita e camiseta encardida, com um furo do lado do imenso umbigo.
Qual a hora? Duas da tarde? Quatro? É indiferente. É indiferente pra quem está excluído do ritmo frenético das horas. Há tantos vagabundos disfarçados: apostadores, corretores de sonhos e mentirosos de todos os tipos, de políticos a santos homens. Porém, estes não são excluídos como eu, um vagabundo confesso aqui, no bar do Benedito, que trouxe solene até à mesa uma branca e ardente água maldita, bendita entre as águas: o Benedito vende benditas águas brancas... e amarelas também.
Deitou-a sobre a mesa. Um pedaço de ilusão. Ainda deixou cair uma gota pela borda do copo, daqueles de fundo alto e estreito, só pra me dar vontade de lamber a mesa, se não fosse a poeira, é claro, e as marcas de tantos desatinos que já foram ali vomitados.
Cheirei seu perfume de longe e um tremor me percorreu dos pés à cabeça. Cheguei perto, mas sem tocá-la, como se a sua limpidez fosse um atestado de pureza. A vi como uma virgem tomada de pudores ao meu olhar nefasto, mas uma virgem farta de sua própria pureza, e que não corou quando eu cheguei mais perto e respirei o perfume doce do seu ombro, ou quando escorreguei meu nariz na sua pele. Ah! Ela não corou, tampouco empalideceu. E quando minha língua, mais ardente que sua alma, tocou de leve seu lábio, mil demônios saltaram do seu seio. Ainda ouvi seu gemido de prazer, e senti suas mãos me agarrarem pelos cabelos. Passou suas pernas ao redor do meu rosto e esfregou-se em minha boca, morna, molhada...
Qual mortal resistiria? Traguei-a como devia...
— Ô Benedito! Manda mais uma dessas...
— E o bolso, dá pra pagar?
— Que foi homem? Alguma vez não paguei conta de cachaça?
Tive a impressão que sentia o cheiro do pano que o Benedito carregava nos ombros. Acho que o mesmo desde que abriu o bar faz alguns anos, e sem lavar.
Chegaram o Amarildo e o Barbosa, dois bêbados de classe. Tipos de bêbados perigosos. Beberam rápido uma amarelinha cada um. O Barbosa torceu o nariz e fechou o olho direito, se apoiando no balcão:
— Aaaannnnhhh!
Enquanto o Amarildo lambia o beiço com uma assustadora serenidade: mão no bolso e nariz altivo. Ficaram olhando seus copos vazios por alguns segundos e dava pra ver o turbilhão que se agitava em suas almas. Olharam-se com uma cumplicidade que dava vontade de chamar a polícia. Fiquei na torcida. Se tivesse alguém comigo apostaria dez mangos que eles pediam mais uma. Foi um momento mágico. Era como se tudo tivesse ficado extático, esperando a decisão: pararam os carros da rua e os pedestres se voltaram para o bar. Porra! Será que o Benedito topa apostar? Mas daí o Barbosa sorriu e bateu nas costas do Amarildo. Covardes! Saíram abraçados como dois irmãos. Nem se importaram com a grande decepção que causaram, não apenas em mim, mas em todos, e no Benedito, principalmente.
Olhei para minha mesa e fiquei enojado: o Benedito virou mais um pouco pra fora do copo. Caralho! Uma roda de cachaça na mesa, da mais pura e digna cachaça de toda cidade, vinda lá do sul de minas, de Luis Alves e de Santo Amaro da Imperatriz (que belo santo!... ou essa imperatriz gostava de um pileque). Nisso o negão, ou melhor, meu querido grande descendente afro-brasileiro, caprichava. Podia não lavar o pano de prato do ombro, mas a cana era de cachaceiro especializado, com mestrado e doutorado na arte de criar bêbados.
Eu ainda tava com medo do que a branca tinha feito comigo no primeiro copo. Quase tive um orgasmo ali mesmo, na mesa do bar, por isso, pra não dar vexame com uma ereção em lugar público, bebi rápido, num gole só.
— Tá muito ligeiro homem! Pra que a pressa? Ainda nem é...
— Não me fale a hora, seu metido! Quem manda na minha vida sou eu! Gritei, me levantando e quase pulando por cima do balcão.
— E quem vende a cachaça aqui sou eu! — falou o Benedito, com sua calma de trinta anos de barriga calejada por balcões do Brasil inteiro.
Confesso que falou tão manso que não pude contestar. Ele tinha a maior das razões que eu podia imaginar naquele momento. Como são superiores as pessoas montadas em fortes argumentos! Só me restou sentar e ficar admirando sua taciturna calma. Era de ficar abismado. Ele falou aquela sentença perfeita sem me olhar, continuou enxugando os copos com o seu maravilhoso pano de prato, sem esboçar qualquer reação que traísse algum espanto: o beiço molhado, a mosca no ombro, a caneta na orelha, o olhar distraído, o furo na camiseta... o imenso umbigo...
Sentei-me novamente, ainda contemplando sua majestade, o Benedito, senhor de todos os destinos itinerantes que por aquela porta entravam. Respirei fundo e, pra demonstrar minha submissão à sua incorruptível autoridade, falei, calmamente:
— Manda mais uma...branca.
Antes que ele se movesse pra pegar a garrafa, Leonora entrou. Ah! Leonora, a filha do Benedito. Quantos anos? 18, 19... sei lá! Pra que saber? Pra soprar longe a paixão, que por si só já tem como destino espalhar-se no vento?
Olhei-me e tive vergonha: uma camiseta azul desbotada mais de um lado que do outro, solta por cima da calça pra esconder o furo no lado do bolso, cabelos desgrenhados, dentes amarelos e um, bem da frente, com o canto quebrado; unhas roídas; alma ruída... e a idade? Porra! Se não sei a idade dela, pra que ela quer saber a minha? Não conto!
Ela passou na minha frente como se eu fosse apenas um monte de ar que bebia cachaça. Encostou no balcão e empinou em minha direção a sua bunda coberta por uma mini-saia branca. Ficou na ponta do pé pra alcançar uma caneta e um papel do outro lado do balcão alto. Ai! Mais um pouco... só mais um pouco... só mais um pouco... Quando ela alcançou a caneta eu havia conseguido deitar na cadeira, de tanto que escorreguei. Quase quebrei o pescoço.
— Amarela! — Falei alto e no impulso, me arrumando na cadeira.
Ela voltou-se rapidamente, baixando a beira da saia, mas eu completei, de imediato, percebendo a rápida transformação no olhar do meigo Benedito:
— Uma amarela, Benedito... agora manda uma A M A R E L A!
Caramba! Eu não gosto de amarela!
A mulata Leonora ficou me olhando por segundos, como se eu houvesse cometido um grave crime olhando a ponta mais proeminente da sua calcinha. Seus cabelos cacheadinhos caiam até o ombro e os olhos verdes lentes de contato faiscavam no meio da tarde dolente. Eu não sabia o que dizer, fiquei petrificado, enquanto esperava que ela me executasse. Depois de um rápido impasse, olhei pra ela e dei de ombros, apontando o copo vazio de cachaça sobre a mesa:
— Uma amarelinha, só pra variar. Você gosta?
— Hammm... Hamm... — rosnou o Benedito, como um cão bravo em cima de um pedaço de carne, quando alguém quer lhe roubar um naco. Ele não permitia gracinha com a Leonora, de nenhum tipo. Botava pra fora do bar mesmo, e isso era muito grave.
— Cadê a amarela o Benê?
Ele bateu com o copo na mesa e espirrou mais um pouco de cachaça.
— Pô! — reclamei, mas sem muita capacidade de argumentação.
Cochichou alguma coisa no ouvido da linda mulatinha, ou melhor, pequena descendente afro-brasileira, que me olhou mais uma vez com um poder de desdenhar que quase me fez desaparecer na cadeira. Saiu rebolando seu corpo preciso pelo meu lado e eu demorei alguns segundos pra perceber a carranca do Benedito.
— Cadê a amarelinha homem?
— Tá na tua frente...
— Ah! É verdade... então manda outra, branca, que essa não é tão boa.
Ele trouxe até a mesa mais uma branca, mas, antes dele tirar a amarela, relutei e segurei a mão que ia levá-la, assim, desamparada, rejeitada. Não! Eu não podia fazer isso:
— Deixa ela... (seu bruto!)
Fiquei olhando pras duas. A cachaça que o Benedito derrubou na mesa fazia um círculo no tampo de fórmica. Coloquei as duas dentro do círculo e me senti um feiticeiro começando a preparar uma poção mágica. Tive a impressão que, rapidamente, espíritos antigos me rodearam e sopraram no meu ouvido velhos segredos, e um arrepio percorreu antes minha alma, depois o corpo. Os dois copos ali, no meio da roda, um claro como a água, o outro amarelo ardente como o fogo. Uma hipnose me roubou do mundo, caíram as paredes e as formas, e viajei no ar sem limites e sem tempo. Meu peito se enchia de uma emoção desconhecida. Viajava num céu muito azul e me aproximava de uma alta montanha, rápido, como uma águia. Fui chegando, bem no topo. O ar era fresco e havia um perfume de jasmim que me invadia.
Passei o topo e caí num vácuo. Fui descendo em queda livre e a escuridão tomou conta de tudo, assim como o frio que me fez tremer e me encolher enquanto caía. Vi o chão chegando rápido e, quando pensei que ia me arrebentar, perdi os sentidos. Não sei a medida do tempo que fiquei sem saber das coisas, mas as coisas foram voltando, aos poucos, aos meus sentidos. Coisas escuras e disformes. O coração parecia bater mil vezes por minuto. Lembrei da última visita do médico no meu quarto, numa das tentativas da família de reverter o quadro, quando ele falou do meu coração que era fraco.
No meio do embaçado vi que alguém se aproximava e fiquei apreensivo. Vinha andando com dificuldade e com a cabeça baixa. Usava uns trapos cobrindo o corpo e pude sentir um cheiro forte de álcool quando chegou perto. Tinha os cabelos desgrenhados e compridos, que não me deixavam ver quem era. Quando ergueu a cabeça, meu peito quase explodiu de dor e medo. Dei um grito e pulei para trás na cadeira:
— Pai!
Só estava o Benedito no bar e ele continuou enxugando os copos sem qualquer reação. Depois de alguns segundos, sem me olhar, falou:
— Começou cedo hoje!
Na minha frente os dois copos vazios, no meio da poça de cachaça da mesa. Eu não lembrava de ter bebido. Quantas já havia tomado? Com as duas, quatro. Muito pouco pra começar os delírios. Estava sentindo um pouco de ânsia e as coisas pareciam se mexer. Coloquei a cabeça entre as mãos e tentei reconstituir o que havia acontecido. Meu pai! Novamente, e péssimo, como sempre. Eu sabia o que era aquilo: era minha mãe! Rezava tanto que começou acontecer isso. Depois que meu pai morreu de porre, não saía mais da igreja.
Meu pai! Será que ele estava assim? Foram anos e anos de bebedeira. O mesmo caminho que eu fazia agora. Olhei para o Benedito esperando encontrar algum consolo para meu desespero, mas aquela alma era impassível a dores alcoólicas. Somente depois de um bom tempo ele falou, mas sem me olhar:
— Você devia parar...
— ... é... você tem razão... vou parar de pensar nisso, senão fico maluco... manda mais uma antes que seja tarde...
— Essa já é a décima...
O reticencioso Benedito. Sempre que falava, ficavam as reticências. Como assim a décima? Só pode estar ficando maluco!
Ele chegou a levantar os olhos, relutou alguns intermináveis instantes, mas depois veio com a garrafa. Era o segundo estágio, ele não trocaria mais os copos. Mesmo assim derrubou um pouco na hora de servir, mas eu estava distante e não me incomodei muito, a não ser na hora que levantei o copo e vi que o movimento fazia ondinhas na roda de cachaça sobre a mesa. Repeti o mesmo gesto várias vezes, muitas vezes, e em cada onda eu navegava cada vez mais longe no tempo: o lago na fazenda, a poça d’água embaixo da calha quando chovia, os barquinhos de papel, os intermináveis barquinhos de papel da minha infância... meu pai fazia os mais lindos barquinhos...
— Porra! Falei que ia parar de pensar nisso.
Um casal de namorados tinha entrado no bar pra comprar cigarros e a moça me olhava sorrindo, como se eu fosse apenas mais um bêbado idiota. Eu não conseguia parar de levantar e abaixar o copo pra fazer ondinhas, por isso não podia deixar de dar razão para ela. Como se nada estivesse acontecendo, numa das vezes que levantei o copo, passei direto do ponto de parada e joguei a branca pra dentro, num gole só. Foi como uma manta de lã me cobrindo do inverno do tempo que ficou pra trás e me roubando para o calor do presente. Retribuí o sorriso da moça, mas o cara me encarou estranho e eu despistei. Ele continuou me encarando. Quando percebi o que tinha feito o Benê já estava virando a quina do balcão com a garrafa na mão. Eu tinha pedido outra!
— Hoje você tá mais rápido, ainda é...
— Pô! Eu já disse que não quero saber que horas são! Bota mais uma aí... qualé! Alguma vez eu já saí desta... desta... casa... sem pagar a conta. Bota aí homem!
Quando terminei de brigar com o Benedito o casal já tinha saído. Fui pegar o copo e fiquei assustado com a imensa poça de cachaça que estava na mesa. Perfeitamente circular. O Benedito ameaçou secar com o pano, mas eu, com uma rapidez e agilidade própria de um herói, segurei seu braço. Não podia conceber aquele líquido que exigiu o suor de tantos trabalhadores ser assim devorado por aquele imundo pano. Não precisei explicar nada, ele entendeu a atrocidade que quase cometeu.
A cachaça derramada parecia um pequeno lago, construído bem no meio da mesa e refletia a lâmpada que ficava sobre a porta de entrada do bar, como se fosse um farol me conduzindo, o náufrago de mim mesmo, para longe dos perigos do dia a dia. Minha visão ficou embaralhada com a lâmpada virando farol e pude sentir uma brisa de mar roçando meu rosto quente. Respirei fundo e virei o leme pra passar ao largo do farol, rumo mar adentro. O cheiro fresco de mar coberto por uma bruma fina me enchia o peito. Do meio da bruma começou a cair uma garoa fina, que logo se transformou em chuva e eriçou o mar. A brisa virou vento, frio e cortante. Meu barco chacoalhava me dando enjôo e eu procurava algum lugar onde me firmar, mas só encontrava cordas soltas. Num balanço mais longo não resisti e vomitei. Em instantes a calmaria virou desespero e vi meu barco se aproximando de uma imensa rocha, onde foi explodir em centenas de pedaços. Caí no vazio e logo lembrei que nunca tinha aprendido a nadar. Fui direto ao fundo e, como um louco, tentava respirar, mas só engolia mais e mais água. Se ainda fosse cachaça!
Tudo ficou escuro e, no exato momento da maior agonia, respirei com toda minha força. Lembro que ainda engoli um gole de água antes de levantar a cabeça e perceber que estava na frente da minha casa, caído na calçada e com a cara pra baixo no meio fio. Havia dado uma daquelas chuvas de verão e a enxurrada ainda estava forte.
Cadê o Benedito! Como é que ele conseguiu ir embora e levar o bar junto?
O Benedito tinha razão, eu precisava parar. Sentado no meio fio e sendo julgado por olhares reclusos atrás de venezianas, senti-me ridículo. Jurei que nunca esqueceria aquela noite, caído na sarjeta, bebendo água da enxurrada. Era o fundo do poço. A roupa toda encharcada, o corpo também, a alma ainda mais. Não dava mais! Decididamente, não dava mais. Precisava parar. Já era noite. Eu devia parar. Sabia o quanto ia ser difícil. Será que eu tomei a cachaça derramada da mesa? É, eu devia parar, mais uma vez, eu devia parar. Seria a última, seria pra valer, e seria difícil, uma batalha diária e desgastante.
Num esforço sobre humano reformulei minha vida, desde os mínimos detalhes. Precisava reconquistar o respeito da família, dos amigos, dos olhos atrás das venezianas. Então recuperei o emprego, mesmo que num cargo inferior, mas não podia reclamar. Não era fácil. Nunca mais bebida!
Pra incentivar ainda mais minha decisão, o destino fez meu caminho cruzar com o da Leonora. Inacreditável! Casamos, com o Barbosa e o Amarildo de padrinhos e tivemos dois pequenos descendentes afro-brasileiros, bem mulatinhos. O próprio Benedito, na sua sapiência, abençoou o casamento. Nunca mais cachaça! Não era fácil, não era nada fácil. Era melhor ir na missa todo domingo para minha mãe parar de rezar tanto. Só água, só refrigerante e, acreditem, leite, muito leite. Realmente, não era fácil. Porém, eu não tinha mais escolha. Era o único futuro que eu poderia ter. Superei a mim mesmo num terreno onde as derrotas eram mais comuns que as vitórias. Venci-me, e, para comemorar a vitória, e para provar pra eu mesmo e pra todo mundo que o meu futuro não era fácil, no outro dia... é, no dia seguinte mesmo. No dia seguinte da noite que acordei na sarjeta bebendo água da chuva, entrei no bar do Benedito, com ares de vitorioso, lá pelas três da tarde, como sempre, e logo gritei pra ele:
— Manda aí, Benê, uma branca, que você não tem idéia o quanto vai ser difícil o futuro que vou enfrentar de amanhã em diante! Só com uma branca pra conseguir!

